FERREIRA GULLAR, O TRADUTOR
Saindo diretamente do forno, ai vai mais um Escrito Amado!
FERREIRA GULLAR, O TRADUTOR
As pessoas desconhecem que o poeta Ferreira Gullar é um excelente
tradutor. Então, publico dois sonetos, do argentino Jorge Luis Borges,
traduzidos por ele.
As Coisas
A bengala, as moedas, o chaveiro, A dócil fechadura, as tardias Notas que não lerão os poucos dias Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a ofendida Violeta, monumento de uma tarde, De certo inesquecível e já esquecida, O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas e taças, cravos, Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas! Durarão muito além de nosso olvido: E nunca saberão que havemos ido.
Uma chave em East Lansing
Sou uma chave de limado aço.
E meu formato não é arbitrário.
Durmo o meu vago sono em um armário
Que não enxergo, presa a meu chaveiro.
Há uma fechadura que me espera,
Uma somente. A porta é de forjado
Ferro e firme cristal. Do outro lado
Está a casa, oculta e verdadeira.
Altos e na penumbra os desertos
Espelhos vêem as noites e os dias
E as fotografias dos defuntos
E o tênue ontem das fotografias.
Em dado momento empurrarei a dura
Porta e farei girar a fechadura.

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